Dia internacional do banheiro (world toilet day)

Ontem, foi comemorado o dia internacional do banheiro, ou mais especificamente: o dia do vaso sanitário. Alguns podem achar engraçado, ou até mesmo pensar que não entenderam corretamente, essas pessoas podem se considerar sortudas, à medida que para elas o banheiro é tão comum ou não conseguem imaginar a vida sem o vaso sanitário.

O motivo para o dia do banheiro não pode ser mais grave

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) 6 de cada 10 pessoas no mundo não têm acesso ao saneamento seguro, ou seja, não existe um tratamento adequado para suas excretas (fonte: OMS).

Na semana passada no IWA (International Water Organisation) Water and Development Congress 2017 em Buenos Aires, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) apresentou para América Latina e Caribe: 106 milhões de pessoas estão sem acesso ao saneamento adequado e 19 milhões de pessoas sem acesso nenhum a um banheiro, ou seja, são obrigadas a praticar a defecação ao ar livre.

O Instituto Trata Brasil indica que 4 milhões de Brasileiros não têm acesso ao banheiro  (fonte: Trata Brasil). O Banco Mundial apresenta um número menor (fonte: BM). Contudo, esses dados não informam, por exemplo, qual a parcela dos banheiros existentes realmente é adequada e segura, além de não esclarecer especialmente sobre os efeitos para as pessoas que vivem nesta realidade.

„Banheiro” de uma família com 4 filhos no interior de Pernambuco, Foto: Rotaria do Brasil

 

As questões do aceso ao saneamento seguro e exigências que resultam

A classificação de banheiro seguro é exposta pelos ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, 2000 a 2015), que definiram como “improved facility” aquelas instalações sanitárias, que separam as excretas humanas efetivamente do contato com os usuários. Além de evitar a atração aos “vetores”, ou seja, preveem possíveis transmissões de germes pelos ratos, moscas e outros animais.

Os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2015 a 2030) com seu objetivo 6 “Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da agua e saneamento para todas e todos” vão muito além disso, pois implicam o tratamento adequado para excretas e esgotos domésticos. Dessa maneira, nos locais onde a permanência e infiltração no local apresenta risco de contaminação do ambiente, é exigido um tratamento local (in sito) mais eficiente ou um serviço organizado de tratamento.

Então, devemos solucionar até 2030 não só o acesso ao banheiro, mas também o tratamento de acordo com as exigências locais e ainda devemos considerar, que 35 milhões de brasileiros não tem aceso ao serviço de água potável (fonte: Trata Brasil).

Nestas condições, os banheiros que dependem da descarga com água – aquele água que faz falta para tantas pessoas – não parece ser uma solução viável, pelo menos não pode ser a única solução. Ou, como Sergio Campus diretor da Secção Agua e Saneamento do BID mencionou no IWA Water and Development Congress 2017: “Nosso maior desafio é o saneamento, precisamos pensar fora da caixa e fornecer soluções inovadoras”.

Fonte: Vídeo da entrevista do diretor da Secção Agua e Saneamento do BID por ocasião do IWA Water and Development Congress 2017

 

Do banheiro seco a uma gestão do saneamento seco

Alguns talvez já conhecem o banheiro seco, que separa fezes e urina e nesta maneira possibilita, em certas condições, até o tratamento completo sem inconvenientes para o usuário. Esta tecnologia ficou conhecida a partir dos anos 80 pelo enfoque “ecosan” (saneamento ecológico) e foi considerado inicialmente como solução rural ou de Permacultura, ou seja, para condições que permitem a recirculação local dos seus produtos: urina pura, material fecal seca e águas cinzas.

Isso mudou a partir de 2003, quando na África de Sul a prestadora do serviço de água e saneamento da cidade de Durban (3 milhões de habitantes) começou a instalar os banheiros secos em grande escala. O motivo principal não era o reuso, mas uma opção para poder oferecer um acesso seguro ao saneamento para 90.000 famílias, à medida que a instalação de rede de esgoto não era viável. A região era extremamente afetada pela falta de saneamento, envolvendo problemas como contaminação do abastecimento de água e até uma epidemia de cólera, que afetou toda a cidade.

Rapidamente, aparecerem muitas iniciativas no mundo, que integraram os banheiros secos em serviços urbanos de saneamento. Os consultores da Rotaria, através da filial Rotaria do Peru e AKUT Peru desenvolveram modelos de gestão para os banheiros secos com algumas empresas de serviço de saneamento no Peru (para mais informações visite a página consultoria Rotaria e busque o pais Peru). E este video (em espanhol) mostra os resultados. Assim, atualmente o banheiro seco já é considerado como solução apropriada para melhorar o aceso ao saneamento em certas condições.

Nossas estratégicas para a difusão de saneamento seco: 1. Banheiros construídos com conceito participativo e 2. Modelo de gestão para o manejo controlado e seguro

 

Inovações que estão fora de caixa podem exigir ainda uma mudança de paradigma

Vimos como fruto de nossos esforços nesta área, a fundação da empresa peruana ARREBOL (facebook arrebolperu) pela nossa cooperante Blanca Villafranca. Ela continua a desenvolver modelos de banheiros secos, que permitem aos usuários um aceso seguro e um serviço econômico, viabilizando sua aplicação em escala. Seu novo produto DRYMIX foi nomeado para o premio da inovação FEMSA do BID no IWA Water and Development Congress 2017 (video mandado para a competição, em espanhol).

O DRYMIX reúne as vantagens de dois principais tipos de banheiros secos: diferente ao sistema com doble câmara (> 500 L cada de alvenaria), é completamente portátil, ou seja, pode ser instalado de forma imediata, e mesmo assim seus dois compartimentos verticais permitem o tratamento de material fecal durante 6 meses, ou seja, possibilitam um serviço da coleta bastante econômico. Em contrapartida, o sistema portátil tradicional com baldinhos (<50L) exige a coleta semanal do material fecal não tratado, o que é caríssimo.

Esquema Drymix com seu modelo de gestão de serviço de coleta de material fecal secado

 

Nesta forma os banheiros secos permitem o acesso ao saneamento seguro nas situações urbanos onde a rede de esgoto não é viável em curto ou médio prazo, ou simplesmente, onde não existe água suficiente para usar um banheiro com descarga. Oficialmente, esse problema afeta 1,2 milhões de pessoas em Lima, onde Blanca trabalha.

Tecnicamente, a solução parece fácil. Contudo, o maior obstáculo para a instalação de banheiros secos em grande escala ainda consiste na mudança de paradigma, não pelos usuários, que geralmente aceitam sem problemas, mas sim pelos autoridades e prestadores de serviços : Saneamento sem rede de esgoto é viável e até em certas condições pode ser mais seguro que a rede.

O processo de mudança de paradigma é maior que o desenvolvimento de inovação, o assunto é de certa forma de intimidade pessoal, as discussões relacionadas provocam vergonhas. Blanca sabe isso e para quebrar a resistência, trouxe um banheiro seco para Buenos Aires e foi convidada pelo BID de mostrar o seu estante, o interesse dos visitantes foi impressionante!

 

Blanca Villafranca com o modelo pequeno do Drymix no estante de BID na feira de IWA Water and Development Congress 2017

 

Valeo Blanca! Um dia importante para o saneamento seguro para todas e todos!

“Fora da caixa” vamos encontrar várias soluções de saneamento seguro para as diferentes realidades.